FIDC Taranis, da Inepar, marca carteira em R$ 697 milhões sem ter recebido um real dos processos em sete anos
Em recuperação judicial, a companhia oferece cotas do fundo, administrado pela Oliveira Trust, para pagar credores; a BDO apontou superavaliação e dois credores recusaram.

Palácio da Justiça de São Paulo. Foto: Sandra Soster/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
O Grupo Inepar, companhia de engenharia em recuperação judicial desde 2014, tenta pagar credores com cotas do FIDC Taranis, fundo criado em 2019 com créditos de processos judiciais do grupo. A carteira está registrada em R$ 697 milhões, mas nenhum dos processos gerou recebimento em sete anos, segundo reportagem do NeoFeed publicada nesta sexta-feira (9).
Os créditos entraram no fundo avaliados em R$ 619 milhões, em laudo da Starboard Restructuring Partners de março de 2019. A gestão ficou com a Starboard Asset até junho de 2026. Pelo regulamento, a marcação dos créditos cabe à administradora e custodiante, a Oliveira Trust, com base em relatórios dos advogados e do agente de cobrança. Procurada, a Oliveira Trust informou que não comentaria o caso.
No fim de 2025, o patrimônio líquido do Taranis era de R$ 609 milhões. A auditoria BDO se absteve de opinar sobre as demonstrações do fundo por falta de evidências para avaliar os créditos e apontou uma superavaliação de R$ 76,5 milhões: a ação contra o Metrô de São Paulo, perdida em definitivo, seguiu no balanço pelo valor cheio até julho de 2026.
Desde junho, a carteira foi reavaliada para cima e acumulou R$ 78,3 milhões de valorização até o fim de setembro, sem nenhum recebimento no período. Os créditos contra a Petrobras passaram de R$ 79,5 milhões para R$ 242,7 milhões. O único dinheiro que entrou no fundo foi um aporte de R$ 1,08 milhão em cotas seniores, consumido até 2021 com despesas.
“As alegações “não procedem””
Inepar, sobre o inquérito aberto pela Polícia Civil de São Paulo a pedido do Ministério Público
A Inepar diz que cerca de metade das cotas já foi oferecida. Pelo menos dois credores recusaram, o escritório Bergamaschi e Bozzo e Alberto Goldchmit, que argumentou na Justiça que as cotas são ilíquidas. Os papéis do grupo são subordinados e o fundo, fechado, vai até 2035. A ARM Capital, gestora desde junho, confirmou que vai renunciar.
O escritório Bergamaschi e Bozzo também apresentou notícia-crime, e em julho, a pedido do Ministério Público, a Polícia Civil de São Paulo instaurou inquérito, ainda em fase inicial e sem juízo de culpa. A Inepar afirma que as alegações “não procedem” e que prestará esclarecimentos.
O caso aparece no momento em que o Conselho Monetário Nacional (CMN) proíbe, a partir de 13 de outubro, novas aplicações de FIDCs em créditos judiciais que ainda não sejam definitivos. Para fundos que já carregam esses ativos, regras extras de avaliação independente e transparência mensal começam em 4 de janeiro de 2027.
Por que importa. FIDC é uma das ferramentas mais poderosas para financiar crédito no Brasil, e o mercado cresce justamente porque o investidor confia na marcação. Casos como o Taranis mostram que quem estrutura fundo com lastro real, administração independente e transparência sai na frente, ainda mais com as regras novas do CMN.
Fonte: NeoFeed. Texto reescrito pela Redação Mundo das Fintechs.
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