FIDC na mira: operações Enxágue e Catéter bloqueiam R$ 63,8 milhões em ativos de dez fundos investigados por esquema de notas frias de sebo
Receita Federal e MP do Paraná dizem que FIDCs de uma mesma administradora davam liquidez a títulos sem lastro; fundos eram da antiga Singulare, hoje da QI Tech, que afirma não ser alvo

Servidor da Receita Federal em operação. Foto: Divulgação/Receita Federal
A Receita Federal e o Ministério Público do Paraná deflagraram na quarta-feira (4) a segunda fase da Operação Enxágue e a Operação Catéter, que miram organizações acusadas de sonegar ICMS e lavar dinheiro no comércio de sebo e gordura animal vendidos a indústrias de biodiesel e curtumes. A Justiça mandou sequestrar e tornar indisponíveis até R$ 271,48 milhões em bens e valores, incluindo os ativos de dez FIDCs, estimados em cerca de R$ 63,8 milhões, e cerca de R$ 10,9 milhões de quatro securitizadoras.
Segundo a Receita, empresas de fachada, as chamadas noteiras, registradas em nome de laranjas, emitiam notas fiscais sem operação real para que as compradoras ficassem com créditos de ICMS que nunca eram recolhidos. As duas investigações identificaram os mesmos fundos de investimento em direitos creditórios, geridos e administrados pela mesma instituição, como canal para converter títulos sem lastro em dinheiro com aparência lícita, ao lado de securitizadoras e factorings que antecipavam o valor das notas.
Na Catéter, nove FIDCs sob a mesma administradora e o mesmo gestor aportaram R$ 63,7 milhões em uma empresa investigada, que devolveu mais de R$ 31 milhões aos fundos em 645 operações, 564 delas a um único fundo. Para os investigadores, o fluxo é incompatível com a antecipação regular de recebíveis e indica a recompra de títulos sem lastro. Na Enxágue, um único FIDC ligado a um grupo econômico de Maringá injetou R$ 60,1 milhões nas empresas de fachada.
Foram cumpridos 64 mandados de busca e apreensão em 28 municípios do Paraná, de São Paulo, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, um deles na sede da administradora dos fundos, em São Paulo. A Justiça vetou resgates, amortizações e distribuição de rendimentos das cotas dos investigados nos FIDCs e pediu informações à CVM, ao Banco Central e à administradora. A Receita também vai ajudar a identificar os cotistas e os beneficiários finais dos fundos.
“A QI Tech não é alvo da investigação e segue operando normalmente, reiterando seu compromisso com a transparência e a cooperação com as autoridades”
QI Tech, em nota
Os fundos eram administrados pela Singulare, comprada pela QI Tech. Em nota, a QI Tech disse que atendeu a uma requisição de documentos sobre operações feitas por terceiros nesses fundos, que os fatos apurados vão de 2016 a 2021, antes da aquisição, concluída em novembro de 2024, e que as decisões de investimento cabem a gestores independentes, fora do grupo. Os órgãos não informaram responsabilização formal dos fundos ou de seus prestadores de serviço, e as apurações seguem. O caso foi noticiado também pelo FIDC Data e pelo Estadão.
Por que importa. O FIDC virou o motor do crédito das fintechs justamente porque transforma recebível em dinheiro rápido, e é aí que mora o risco: nota sem venda real. Quem constrói tecnologia para checar lastro, conferir se a nota fiscal tem operação de verdade e cruzar sócios de cedentes vende exatamente o que administradoras, gestoras e cotistas vão passar a exigir depois de casos como este.
Fonte: Receita Federal (04/11/2026), FIDC Data e Estadão. Texto reescrito pela Redação Mundo das Fintechs.
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